segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Os livros que ganharam uma guerra - Por Sidney Anversa Victor*

Os sites da Organização das Nações Unidas em todo o mundo publicaram com destaque a história emocionante da menina síria Muzon Al Meliha, de 17 anos, que vive há três anos com sua família em um campo de refugiados na Jordânia. Sob condições precárias e longe de seu país devastado pela guerra, a adolescente não abre mão do direito de estudar, a exemplo de Malala Yousafzai, a paquistanesa ganhadora do Prêmio Nobel da Paz.

Além da vontade de aprender e dedicação à causa do ensino, chama atenção nos conteúdos veiculados nos sites da ONU a foto de Muzon estudando no escuro, sentada num velho colchão, na  barraca que divide com sua família, para dormir, cozinhar e viver. É o espaço que lhe cabe num campo onde milhares de sírios sobrevivem com alimentos e água racionados e sem energia elétrica. Para a jovem refugiada, o maior patrimônio são os livros e um caderno, como ela, sobreviventes de uma guerra insana, na qual já morreram mais de 250 mil pessoas.

Com a ajuda de uma lanterna, a menina lê e, em cada página, projeta-se para muito além daquele local, pois o conhecimento não tem fronteiras. Muzon é livre para pensar, defender ideias e ideais, pois a leitura lhe dá asas, e o pensamento voa! Ela não tem internet, celular, tablet ou computador, mas está conectada ao mundo por meio dos livros impressos, que durante séculos, como continua acontecendo, têm sido a grande mídia de acesso ao conhecimento científico e disseminação da cultura.

A jovem refugiada síria é a testemunha maior da inutilidade e improcedência de outra guerra, muito menos cruel no aspecto humanitário, mas contraproducente e inoportuna para a civilização: o combate à comunicação impressa, por segmentos cada vez mais minoritários, sob o falso pretexto da preservação ambiental. A indústria gráfica já demonstrou mundialmente que a sua cadeia produtiva é sustentável, em especial no Brasil, onde o papel de imprimir provém integralmente de floretas plantadas, que, em seu crescimento, ainda sequestram grande volume de carbono na atmosfera.

Não se destroem matas nativas para produzir papel. O desmatamento ilegal em nosso país tem outras origens e destinos, sabidamente muito dissociados da matéria prima utilizada para a produção de livros, jornais, revistas, cadernos, embalagens e outros produtos fundamentais para a sociedade. O impresso é ambientalmente correto e economicamente viável. Além disso, resiste ao tempo, aos ditadores, às guerras e até às crises econômicas do Brasil, onde a indústria gráfica, apesar de tudo, segue seu curso no contexto da economia. Ainda há exemplares em ótimo estado da Bíblia de Gutenberg, primeira obra impressa com os tipos móveis inventados por esse genial alemão, há 565 anos.

Não há rivalidade ou canibalismo entre as mídias. O mais importante é democratizar o acesso à informação e à cultura. Nesse sentido, a comunicação impressa continuará cumprindo missão relevante, como demonstram os livros e o caderno da menina Muzon,  produtos gráficos que venceram uma guerra para cumprir sua missão de informar, comunicar e disseminar conhecimento.


*Presidente da Abigraf Regional São Paulo (Associação Brasileira da Indústria Gráfica-SP)

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